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Canteiro experimental: uma proposta pedagógica para a formação do arquiteto e urbanista

Reginaldo Luiz Nunes Ronconi

Pós: Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAUUSP · 2005

doi:10.11606/issn.2317-2762.v0i17p142-159 (opens in a new tab)

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Abstract

pós- IntroduçãoPor intermédio da Lei de Diretrizes Básicas 1 (LDB), o canteiro experimental se tornou equipamento obrigatório nas faculdades de arquitetura e urbanismo.É preciso manter acesa a reflexão sobre as possibilidades de sua conformação e a convergência pedagógica de seus objetivos para que sua existência não se torne apenas uma resposta burocrática à regulamentação.Essa possibilidade negativa para a "assimilação" da orientação da legislação, isto é, atender apenas ao aspecto formal, pode acontecer de diversas maneiras: instalações insuficientes, falta de manutenção, ou (e talvez a mais provável) o canteiro existindo fisicamente, porém destacado da estrutura disciplinar e do projeto de formação da escola.No entanto, o uso do canteiro experimental é sempre uma reivindicação de grande parte dos estudantes.Reivindicação que pode ser observada em seu aspecto generalizante, em todos os encontros promovidos pelos estudantes de arquitetura e urbanismo, quando o tema, necessariamente, ilustra algumas atividades.A LDB recomenda um processo para atingir o formato considerado ideal, recomendação adequada, haja vista a situação nova que o canteiro possibilita descortinar.Mas, a meu entender, o caráter do equipamento é mais estrutural, diferente do que preconiza a lei.É menos complementar, pois nele é possível trabalhar a construção do olhar abrangente que interessa para o arquiteto e urbanista.É, sem dúvida, um assunto para discussão e esse é o principal objetivo deste artigo. Exposição de idéiasEm primeiro lugar, é importante apresentar algumas idéias as quais ajudarão a compreender melhor o papel proposto para um canteiro experimental. pós-Não posso ver o canteiro experimental senão como uma proposição pedagógica cuja meta seja colaborar na emancipação do estudante de arquitetura e urbanismo.Porém, com muita freqüência observamos a proposta do canteiro ser confundida com outros "objetos" que, se parecidos na forma, são completamente diferentes nos objetivos.A primeira confusão se dá com o canteiro de obras, e é fácil fazê-la, pois ambos são espaços para organizar o trabalho visando à materialização de projetos, utilizando os mesmos materiais e exercitando as mesmas técnicas.Se aceitássemos essa linha de pensamento para implantar o canteiro nas escolas, este seria um local de treinamento de habilidades construtivas (e é claro que será sempre desejável para o arquiteto conheçê-las), porém sem utilizar sua potencialidade transformadora.Vemos aqui uma importantíssima diferença, enquanto o primeiro (na maioria absoluta dos casos) adota uma organização que aliena o trabalhador e atende ao interesse da reprodução do capital empregado na obra, o segundo liberta e dá asas para que o estudante possa criar, com maior complexidade, uma visão sobre sua profissão, atendendo ao interesse humano voltado para a produção do conhecimento.Reintegra o saber e o fazer como conhecimento único e vital para a realização da capacidade transformadora do homem.A segunda confusão, também muito comum, consiste em avaliar que se o canteiro experimental não pode ser encarado como qualquer canteiro de obras, então deverá ser dirigido à pesquisa analítica, recebendo o formato complementar, necessário para apoiar os laboratórios característicos da engenharia civil, os quais estudam resistência dos materiais e analisam suas propriedades, separadamente.Não podemos trilhar esse caminho, pois nos impediria de valorizar, no canteiro experimental, atividades especificamente talhadas para a formação dos arquitetos e urbanistas.Atividades que estimulam um processo voltado para a compreensão das múltiplas relações a ligarem os diversos aspectos do conhecimento humano.Portanto, um esforço no sentido inverso, ou seja, o de valorizar os propósitos pedagógicos do canteiro experimental como suporte para o entendimento das relações sistêmicas existentes no fazer do arquiteto e urbanista, é que deve orientar nossa discussão. A construção do arquiteto e urbanista, tema do canteiro experimentalAcredito que devemos buscar, no canteiro experimental a ser implantado nos processos de formação do arquiteto e urbanista, um desempenho completamente diferente desses casos (canteiro de obras e laboratórios analíticos), mas que permita a compreensão dos conteúdos que os tornam tão próximos, a ponto de possibilitarem essa confusão de papéis. pós-Ao canteiro experimental interessa que o estudante reconheça sua capacidade de trabalhar seus conhecimentos (adquiridos no curso de arquitetura ou não) respondendo a situações as quais ainda não foram por ele enfrentadas.Vale aqui lembrar que o conhecimento envolve a memória de realizações bem ou malsucedidas (em qualquer campo), envolve e desenvolve a visão da realidade, construindo-a e reconstruindo-a a cada momento.No canteiro experimental o estudante deve trabalhar apoiado em seus projetos.E o nível de independência para a organização desse trabalho deve ser compatível com o momento do estudante no curso.Será menor para o estudante do primeiro semestre e ganhará liberdade (pelo reconhecimento da própria capacidade de elaborar e materializar idéias), à medida que o estudante avança na grade curricular.O canteiro experimental deve fazer parte da proposta pedagógica do curso e, portanto, acompanhar o desenvolvimento do currículo.Seu processo de implantação deve valorizar essa ligação, mais que qualquer outra contingência relativa à infra-estrutura ideal.De nada adianta uma exposição de equipamentos de última geração, se sua aplicação não apontar para o mesmo propósito pedagógico do restante do curso.A possibilidade que o estudante terá para trabalhar, a partir da própria escolha, irá auxiliar no estabelecimento de uma segurança a qual poderíamos chamar de pró-ativa, ou seja, confiança na própria capacidade de avaliar uma situação e agir conforme as possibilidades existentes naquele momento e naquele contexto.Esse processo, de descoberta, invenção ou reinvenção, demanda o uso do tempo em uma dimensão cujo controle nem sempre é tão direto, permite ou quase exige o erro para encontrar a construção de soluções satisfatórias.Permite desfazer e refazer inúmeras vezes, completando, no estudante, a visão do processo laborioso que é a transferência de um desejo para a realidade.Não há, nesse fazer, cobrança semelhante à existente no canteiro de obras.Neste é preciso não errar, ganhar em produtividade, executar sempre com precisão, mesmo uma única tarefa monótona e repetitiva.Não podemos entender os dois espaços como iguais apenas porque trabalham com cimento, areia, pedra e outros materiais semelhantes.Não podemos compará-los porque em ambos encontramos prumos de centro, prumos de face, martelos, vibradores, betoneiras, etc.Não podemos julgá-los iguais porque neles trabalham pessoas usando capacetes, luvas, protetores auriculares (existirá, de fato, essa situação em ambos?), etc.Determinados ângulos de uma fotografia (imaginária), certamente, poderiam deixar os contornos parecidos, mas o esclarecimento dos objetivos revela uma situação completamente diversa.Não podemos aceitar que a principal função do canteiro experimental seja limitada a treinar nossos estudantes nas habilidades necessárias à execução das técnicas construtivas.

Abstract licence: CC BY

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